VASO SECULAR: EM BUSCA DA INOVAÇÃO PERDIDA

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Campanha empreendida por Bill Gates pela renovação da privada leva à reflexão sobre a inventividade humana e evidencia outros objetos que pouco se modificaram. Texto Thiago Jansen


Quando Bill Gates, fundador da Microsoft e o segundo homem mais rico do mundo segundo a “Forbes”, divulgou na última terça-feira o resultado de uma competição organizada por sua fundação para “reinventar os vasos sanitários”, muita gente foi pega de surpresa pela notícia.
Na ocasião, ele lembrou, pelo Twitter, que o vaso fora inventado 1775 e desde então não se modernizara. Se a iniciativa, que conta com o apoio financeiro de Gates, vai vingar, só o tempo dirá. Mas, ao chamar a atenção para um objeto há tanto tempo presente no cotidiano de boa parte do planeta, o bilionário acabou levando especialistas a uma reflexão sobre a própria natureza da inovação humana — e que, de quebra, ajuda a evidenciar outros objetos que pouco se modificaram desde a sua criação e que estão à nossa volta.
Para Jack Challoner, físico que trabalha no Museu de Ciências de Londres e é o autor do livro “1001 invenções que mudaram o mundo” (editora Sextante), a inovação é resultado, em primeiro lugar, da necessidade de se resolver um problema.
— É realmente como diz o ditado. A necessidade é a mãe da inovação. Qualquer um pode inovar e já fazemos isso: constantemente melhoramos o jeito de se fazer determinadas coisas em nossa vida quando há a necessidade disso. Os inventores fazem o mesmo. A diferença é que não fazem somente na vida deles. Então, a inovação normalmente ocorre quando há um problema para ser resolvido — afirma Jack, que também admite a possibilidade de invenções acidentais, mas diz que mesmo elas costumam ocorrer em ambientes de pesquisa acadêmica e tecnológica.
No caso da iniciativa de Bill Gates, o problema argumentado pelo bilionário é que o modelo predominante de vaso sanitário na maior parte do planeta não é compatível com a realidade de países subdesenvolvidos, que não possuem acesso à água encanada ou sistema de esgoto. “Além de construir banheiros sustentáveis, temos de desenvolver soluções para tratar os dejetos”, afirmou Gates ao anunciar os três projetos vencedores da competição, desenvolvidos por universidades dos EUA, Reino Unido e Canadá sob o financiamento da Fundação Bill e Melinda Gates.
Presidente e fundador da Associação Nacional de Inventores (ANI), que procura fomentar o incremento tecnológico no país ao apoiar os inventores independentes, Carlos Mazzei também acredita que a necessidade, na maioria dos casos, é a força por trás da criação, mas ressalta que uma invenção só pode ser considerada uma inovação caso ela dê certo no mercado.
— A necessidade vem em primeiro lugar e ela ocorre de acordo com o contexto e os problemas de cada lugar e tempo. No entanto, só pode ser considerada inovação a invenção que deu certo. Para uma invenção virar inovação, ela precisa necessariamente entrar no mercado e ser bem sucedida nele — afirma Carlos, que diz achar louvável a iniciativa de Bill Gates. — O problema da possível falta de água no futuro é uma questão mundial e se não tivermos mais pessoas pensando nisso, ele não vai ser resolvido. Caso dê certo, vai ser uma revolução em países subdesenvolvidos.
Mas uma necessidade, em muitos casos, também pode ser criada. É o que acreditam Ricardo Pereira, coordenador da Agência UFRJ de Inovação, e André Calazanes, chefe do departamento de Marketing da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que promove o desenvolvimento por meio do fomento a empresas, universidades e instituições públicas e privadas. Ricardo também distingue a inovação incremental da radical:
— A inovação pode ser incremental ou radical. A inovação incremental é quando você acrescenta novas funcionalidades a algo já existente, ou mesmo aprimora seu funcionamento de acordo com as novas necessidades. Já a radical é quando algo completamente novo é criado, substituindo outras tecnologias ou criando uma nova demanda. Hoje o celular passa por uma inovação incremental, mas quando ele surgiu foi uma mudança radical. O mesmo está acontecendo com os tablets, por exemplo. Qual a necessidade que tínhamos deles há alguns anos? Nenhuma, mas hoje são cada vez mais populares — afirma Ricardo.
André Calazanes também acredita nessa tese e sustenta que a inovação, hoje, é fruto de um esforço contínuo e árduo de governo; instituições de ciência, pesquisa e tecnologia, como universidades; e da iniciativa privada. Para ele, sem um desses, a inovação não vinga.
— Na base do sistema, você tem as entidades de pesquisa que produzem o conhecimento e cabe a elas, muitas vezes com o apoio do governo, antecipar as inovações que só podem surgir nesses ambientes. As empresas privadas entram então como o setor produtivo, que vai inserir a inovação no mercado. Cabe ao Estado incentivar e administrar essa relação — afirma André, que acredita que o grande desafio dessa dinâmica é transferir as inovações para a iniciativa privada em algum momento. — Se não houver essa transferência, a inovação fica apenas nas formas de patentes, projetos e protótipos. Não ganha vida.
No caso do Brasil, Ricardo Pereira afirma que a maior dificuldade da inovação por aqui está justamente na relação entre as entidades de pesquisa e as empresas privadas, algo que ressoa como uma característica cultural nossa.
Coordenador da Agência de Pesquisa da UFRJ, ele afirma que, apesar do país passar por um aumento em seu número de empreendedores nos últimos anos, ainda não temos uma cultura empreendedora.
— Nas universidades, os alunos são ensinados a serem funcionários ou continuarem no meio acadêmico. E mesmo os empresários ainda dependem demais do governo. O resultado é uma dificuldade de mover a ciência produzida nas universidades para o mercado. Não conseguimos transformar o conhecimento em produtos e serviços — lamenta Ricardo —Estamos acordando para essa situação, mas é preciso mais.
Se por um lado a competição promovida por Bill Gates nos faz pensar nos fatores por trás da inovação humana, o fato dela propor a reinvenção de um objeto tão prosaico como o vaso sanitário também chama a atenção para as pequenas tecnologias do nosso cotidiano que sempre pareceram estar lá, do jeito que são — a privada moderna, como lembrou Bill Gates, foi inventada em 1775. E esses objetos estão por toda parte.
Ou o leitor já refletiu sobre como era a vida sem algo singelo como, por exemplo, o zíper ? Já se vão mais de cem anos da criação do fecho, mas ele pouco se modificou desde a sua invenção, no final do século XIX, e continua sendo usado da mesma forma. O clipe de papel é outra invenção que, simples e eficiente, também.
já passa da casa dos cem anos sem ter sofrido maiores modificações — seu design, cor e material podem variar, mas um clipe de papel é sempre reconhecível à primeira vista. Mesmo os óculos, essenciais para milhões de pessoas, continuam relativamente iguais ao seu surgimento, há séculos atrás, principalmente em seu objetivo de ajudar pessoas a ver melhor — algo que pode mudar dependendo do resultado do projeto “Google Glass”, da gigante de buscas da internet.
Como é possível que objetos como esses tenham sobrevivido tanto tempo sem passar por maiores modificações? Para o escritor Jack Challoner, não há resposta definitiva para a questão, mas existem fatores que ajudam a explicar a razão para a longevidade de alguns objetos.
— Existem muitos fatores, específicos para cada invenção. Os fatores que fazem um item de consumo ser bem sucedido e sobreviver, por exemplo, são muito diferentes dos fatores que fazem um processo industrial ser um sucesso — afirma Jack, que diz acreditar que toda a tecnologia, mesmo que não mude em sua essência, passa por pequenas alterações com o passar do tempo. — Mas há algumas questões comuns: a inovação é fácil de usar? Ela funciona bem para o contexto (um celular seria inútil há cem anos, por exemplo)? Possui um bom custo-benefício? Possui o melhor design possível para ele? Carlos Mazzei, da Associação Nacional dos Inventores, resume a questão com outro ditado.
— “Em time que está ganhando não se mexe”. Por isso, a mudança de paradigma muitas vezes acaba sendo a principal dificuldade para a inovação e, ao mesmo tempo, a aliada de determinadas tecnologias já consolidadas — acredita Carlos.