Torpedo

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André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho, que está sendo publicado pela editora Revan. O tema da obra é a trajetória de André Pinto Rebouças (1833-1898). Filho de um advogado mulato autodidata e da filha de um comerciante, ele nasceu em Cachoeira, na Bahia. Depois de formar-se como engenheiro no Rio, foi estudar na Europa em 1861. De volta ao Brasil, trabalhou na reforma de portos e edificações no litoral. De 1865 a 1866, serviu como engenheiro na Guerra do Paraguai. André Rebouças teve papel importante nas obras do plano de abastecimento de águas para o Rio e na construção das docas da Alfândega. Como empresário, envolveu-se, sem sucesso, em vários empreendimentos que visavam à modernização do país. Na década de 1880, Rebouças engajou-se no movimento abolicionista ao lado de amigos como Joaquim Nabuco e Taunay. Muito ligado a D. Pedro II, viu com hostilidade o movimento militar que levou à República. Embarcou para a Europa no Alagoas, acompanhado o imperador na viagem para o exílio. Até 1891 viveu em Lisboa, onde foi correspondente do jornal britânico The Times. Arruinado financeiramente, trabalhou como engenheiro.

André Pinto Rebouças nasceu na cidade de Cachoeira, na Bahia, no dia 13 de janeiro de 1838, em plena Sabinada – insurreição baiana ocorrida no período regencial. Uma vez concluída a sua formação de engenheiro, André e seu irmão Antônio seguiram em sua primeira viagem à Europa, na verdade uma viagem de estudos, que transcorreu entre fevereiro de 1861 e novembro de 1862. André Rebouças seguiu a carreira de engenheiro, tornando-se o responsável por importantes obras ferroviárias, portuárias e de saneamento em diversas províncias do Brasil. Com a deflagração da Guerra do Paraguai, André Rebouças é convocado na qualidade de engenheiro militar, nela permanecendo no período compreendido entre maio de 1865 e julho de 1886, quando se vê obrigado a retornar ao Rio de Janeiro, por motivos de saúde. Foi militante do movimento abolicionista junto com José do Patrocínio, tendo fundado, com Joaquim Nabuco, o Centro Abolicionista da Escola Politécnica, na década de 1880, onde era professor e jornalista. Amigo íntimo de Carlos Gomes, registrou em seus diários fatos importantes da carreira do maestro no Brasil e na Europa. Intercedeu diversas vezes junto ao Imperador Pedro II e a políticos brasileiros solicitando ajuda financeira para encenações das óperas do maestro. Rebouças era presença constante na casa da família Gomes em Milão, sendo padrinho de batismo de Carlos André. Defensor da Monarquia e leal a Pedro II, embarcou para a Europa no Alagoas, acompanhado o imperador na viagem para o exílio após a Proclamação da República. Exilou-se em Funchal, na África, onde morreu em 1898. Seu abatimento no exílio era muito intenso, acentuado por um precário estado de saúde. As notícias sobre a morte de André Rebouças relatam apenas o resgate do corpo, na base de um penhasco de cerca de 60 metros de altura, muito próximo ao hotel em que vivia.

Num estudo sobre a obra de Benjamim Franklin, publicado no jornal Novo Mundo em 1876, André Rebouças exalta seu espírito inovador: “É bem singular, mas o homem tem raiva à ideia nova. Só espíritos verdadeiramente superiores aplaudem de coração as descobertas em qualquer ramos dos conhecimentos humanos” . Apesar da consciência dessa resistência humana à novidade, Rebouças não se furtava a empreitadas de vulto, conquistando inimigos e desafetos no caminho. Durante a guerra do Paraguai projetou um dispositivo que lançado em baixo d’água, explodia ao atingir o casco de um navio. Mais tarde este dispositivo, aperfeiçoado viria a ser conhecido como torpedo. Os britânicos por sua vez, argumentam que a invenção deste dispositivo de guerra coube ao engenheiro Robert Whitehead em 1866, que conseguiu viabilizar na prática uma ideia inicialmente proposta pelo austríaco Giovanni de Luppis.

A palavra torpedo provém do latim e é usada para descrever uma espécie de peixe que utiliza um choque elétrico para abater suas presas. Antes de Whitehead a palavra já era empregada para qualquer arma com ação abaixo da linha da água. Em 1775 o inventor americano David Bushnell usou o nome para um explosivo que idealizou para ser usado em seu revolucionário submarino chamado Turtle (tartaruga). Outro dispositivo do estado da técnica era conhecido como “torpedo de Harvey” dos irmãos John e Frederick Harvey. Tratava-se igualmente de uma mina, lançada da proa do navio, que ao atingir a lâmina de água, divergia do curso do curso do navio em 45 graus.

Maior conflito armado ocorrido na América do Sul, a guerra do Paraguai (1864-1870) foi o desfecho inevitável das lutas travadas durante quase dois séculos entre Portugal e Espanha e, depois, entre Brasil e as repúblicas hispano-americanas pela hegemonia na região do Prata. Esta guerra, ocorrida nos anos de 1865 a 1870, marcou a formação de exército brasileiro e o apogeu e decadência da monarquia brasileira. Aliados Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai e as pretensões de Solano Lopes, seu governante, na busca dos caminhos que considerava ideais para desenvolvimento paraguaio, teve como resultado a dizimação dos paraguaios, a morte de milhares de brasileiros, argentinos e uruguaios, e a livre navegação na bacia do Prata, da qual nenhum dos países envolvidos se beneficiou. Após várias batalhas, o exército paraguaio foi derrotado e o ditador assassinado em março de 1870. Algumas das batalhas tornaram-se famosas, tais como a do Riachuelo, Tuiuti (considerada a maior batalha campal da América do Sul), Itotoró e Avaí. A Guerra do Paraguai aumentou a crise econômica brasileira e arruinou o Paraguai, até então a nação mais desenvolvida da América do Sul.

Desde sua independência, em 1811, o Paraguai começou a se desenvolver de um modo diferente de todos os países latino-americanos. Seu primeiro presidente, José Gaspar Rodrigues de Francia distribuiu terras aos camponeses, combateu a oligarquia rural improdutiva, construiu inúmeras escolas para o povo. O resultado foi rápido: Em 1840, o Paraguai já não tinha analfabetos. Francia morre em 1840. Seus sucessores, Antônio Carlos López (1840-1862) e seu filho, Francisco Solano López (1862-1870), prosseguiram a obra de construir no Paraguai um país forte e soberano. Ajudado pela Inglaterra, grande interessada em aniquilar o Paraguai, pois este era o único país não subordinado a nenhuma potência estrangeira e que não se enquadrava ao esquema capitalista industrial inglês, a Inglaterra ajudou os Aliados contra o Paraguai. Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança contra o Paraguai e deram início ao mais longo e sangrento conflito já ocorrido na América do Sul.

Francisco Solano Lopez, filho de Carlos Antônio López, intitulou-se “Napoleão das Américas” seduzido com ideias de poder e ambição na América do Sul. Sucedera seu pai em 1862 como ditador do Paraguai, sua ambição era tornar o Paraguai uma potência platina, capaz de competir com a Argentina e o Brasil pela preeminência na América do Sul. Atribuía o confinamento de seu país, em parte, às maquinações diplomáticas entre o Brasil e os argentinos, que dificultavam ao Paraguai a navegação fluvial e o exercício de um relevante comércio internacional. Reunindo o Paraguai, as províncias argentinas de Entre Rios e Corrientes, o Uruguai e talvez a parte meridional do Rio Grande do Sul, teria condições de fazer frente tanto ao Brasil quanto à Argentina. Para se ter uma ideia da extrema crueldade que se caracterizou a Guerra do Paraguai, antes da guerra, a população total do Paraguai era de 800 mil pessoas. Depois dessa guerra, essa população reduziu-se a 194 mil pessoas, isto é, 75,7% dos paraguaios foram exterminados. Da população masculina adulta sobreviveram tão-somente 0,5%. Além de tudo isso, o Paraguai perdeu 140000 km2, sua economia foi inteiramente destroçada e ainda teve de pagar altas indenizações aos aliados. Assim, o Paraguai, que tinha sido um próspero país, tornou-se um grande cemitério.

Rebouças participou de todas as mais importantes iniciativas do movimento abolicionista em sua primeira hora: organizando o banquete para o ministro norte-americano Mr. Henry Washington Hillard, em 20 de novembro de 1880: tomando parte na fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão; escrevendo inúmeros artigos da Gazeta da Tarde; redigindo o projeto de lei que criava o Imposto Territorial, cuja apresentação aos membros do Parlamento, em setembro de 1882, seria feita pelo deputado José Mariano da bancada liberal de Pernambuco; estimulando a criação de uma Sociedade Abolicionista na Escola Politécnica, onde lecionava; redigindo em 1883, juntamente com José do Patrocínio, o Manifesto da confederação abolicionista – primeiro documento de uma sociedade fundada no dia 9 de maio daquele ano, nas dependências da Gazeta da Tarde e que o manteria como tesoureiro eleito até 12 de junho de 1888. Tal manifesto, exigindo a abolição imediata do trabalho escrevo e sem indenização, seria dirigido ao Parlamento e publicado por iniciativa do Deputado Severino Ribeiro no Diário Oficial. Rebouças também participaria da sessão preparatória para a fundação da Sociedade Central de Imigração, no Liceu de Artes e Ofícios, em 14 de outubro de 1883, onde protestou, juntamente com seu amigo Taunay e com o publicista Carlos von Koseritz, contra a introdução de chins [N.R:chineses] no Brasil. Dessa sociedade participaria até a sua partida para o exílio. (…)

Assim, no decorrer da campanha abolicionista, notadamente em seu momento menos emocional e panfletário, Rebouças associaria a miséria brasileira à vigência, por três séculos, do estatuto colonial da terra e esboçaria uma superação das condições de vida dos trabalhadores nacionais e estrangeiros, isto é, de emancipados e colonos, mediante a instituição de uma lei agrária. Nesse sentido, pode-se dizer que progressivamente as preocupações de Rebouças evoluíram de um diagnóstico referido aos malefícios sociais produzidos pela escravidão na direção da caracterização dos impasses à construção da autonomia do homem comum em um contexto de monopólio da terra. Sua perspectiva seria dominada, doravante, pelo tema da emancipação social.

 

Fonte:

http://www.blackinventor.com/pages/andrereboucas.html

http://www.info.lncc.br/dimas/cgrebou.htm

http://www.revan.com.br/catalogo/0143c.htm

http://www.revan.com.br/catalogo/0143g.htm

http://www.weymouthdiving.co.uk/torpedoes.htm

http://www.weymouthdiving.co.uk/whitehead.htm

http://www.weymouthdiving.co.uk/non_whitehead.htm

http://geocities.yahoo.com.br/guerrapara/guerradoparaguai.htm

http://www.senado.gov.br/web/historia/g_paraguai.htm

http://www.geocities.com/diogobizinelli/paraguai/

Acesso em agosto de 2002

http://www.revan.com.br/catalogo/0143f.htm

Acesso em julho de 2005

O quinto século: André Rebouças e a construção do Brasil, de Maria Alice Rezende de Carvalho, Ed. Revan

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