Moléculas para Alvos Biológicos

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Sediada no Rio de Janeiro, a Extracta é uma pequena empresa de base tecnológica que pesquisa a flora brasileira para identificar, isolar, modificar, patentear e licenciar moléculas medicamentosas usadas pela indústria farmacêutica. A companhia foi a primeira a receber autorização para explorar por dois anos o material genético de plantas da Amazônia e da Mata Atlântica. Com a licença inédita concedida pelo Conselho Nacional do Patrimônio Genético (CGEN) em 22 de junho, a Extracta tem condições de re atrair investidores e fechar novos contratos milionários – como o firmado há cinco anos com a Glaxo – que permitiriam até explorar outros ecossistemas brasileiros. “O fundamental da licença para nós é que ela nos abre duas portas fechadas: financiamento público e a clientela internacional”, diz o diretor-geral da Extracta, Antônio Paes de Carvalho. Na prática, as licenças do CGEN são, agora, uma das principais condições para que as pequenas empresas do setor firmem contrato com a indústria farmacêutica. Embora Carvalho garanta que a Extracta mantém contratos com um grande número de empresas, os contratos milionários com multinacionais são a principal aposta da Extracta. Por conta do contrato com a GlaxoSmithKline, por exemplo, a Extracta chegou a faturar R$ 3 milhões por ano e a empregar 60 cientistas, dos quais quase 20 eram doutores. Hoje tem um quadro fixo de 12 pesquisadores e sua receita gira em torno de R$ 1 milhão. Com a licença atraindo clientes, a empresa poderia recontratar uma mão-de-obra altamente qualificada.

 

 

A autorização do CGEN é também uma das condições para obter financiamento de órgãos públicos. A Extracta já pleiteia R$ 150 mil junto à Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). A Finep normalmente concede empréstimos “com encargos financeiros formados pela Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) acrescidos de margem (spread) entre 2% e 6% ao ano e taxa de abertura de crédito (1%)”. Mas, de acordo com Carvalho, o problema são as garantias exigidas, que dificultam o acesso de pequenas empresas a essas verbas. “Atualmente, a Extracta tem hoje zero de recursos públicos.” A alternativa seria uma aproximação com a Associação Brasileira de Capital de Risco (ABCR). Traduzindo “venture capital” como capital empreendedor, o recém-empossado presidente da ABCR, Álvaro Gonçalves, considerou “um compromisso moral a Associação Brasileira de Empresas de Biotecnologia (ABRABI) e a ABCR discutirem juntas uma forma de irrigar o parque de sementes empresariais do país”. As perspectivas são boas, de acordo com Carvalho, que também é presidente da ABRABI. Outro aspecto essencial é o contato com a universidade. Aberta em 1998, a companhia mantém “íntima conversa” com a universidade e conta com o permanente intercâmbio de estagiários, professores e consultores. A Extracta faz parte do Bio-Rio, o maior polo de biotecnologia do Brasil, e está instalada em uma área alugada da própria Universidade Federal do Rio de Janeiro. Carvalho abriu a Extracta catorze anos depois de ter montado a primeira empresa brasileira de biotecnologia vegetal, a Biomatrix. Os dois empreendimentos foram feitos quando ele ainda lecionava e pesquisava no Instituto de Biofísica da UFRJ, o que é ilegal. “Embora oficialmente nenhum funcionário público possa pertencer à direção de uma empresa, com autorização do reitor arrisquei e nunca deu nenhum problema.” Hoje, Carvalho figura como um dos professores eméritos da universidade.

 

Carvalho também não esconde que o principal diferencial de sua empresa não é nenhum método ou produto revolucionário, mas simplesmente a biodiversidade brasileira. A origem dos “extratos básicos” da Extracta está em 4.900 espécies de plantas. “A natureza brasileira tem 65 mil espécies de plantas, das quais talvez 1.400 com atividade medicamentosa conhecida. Das demais, simplesmente não se sabe”, afirma o empresário. A Extracta explorou a biodiversidade sem problemas até 2000, pois até então o Brasil não tinha nenhuma lei que regulamentasse a atividade. O governo só começou a criar normas e instituições sobre o patrimônio genético brasileiro, depois do atrito entre a Novartis Pharma AG e a Associação Brasileira de Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia (Bioamazônia), organização social especializada em biotecnologia. Mas, como o contrato com a Glaxo havia sido firmado antes de o governo editar as leis que proibiam a bioprospecção, o banco de dados da Extracta continuou a crescer. Tinha 30 mil extratos no final de 2001 e hoje conta com mais de 40 mil. Desses, 12 mil são considerados “básicos” – é com eles que a companhia faz os testes biológicos, que levam cerca de três dias. Para Carvalho, aí começa o verdadeiro problema: “Cada extrato tem de 300 a 500 moléculas. Qual delas interessa para a empresa?” Então, a Extracta fraciona esses compostos e observa a atividade biológica dessas “partes” cada vez menores para chegar à molécula com a capacidade procurada. “Só que a chance de sair uma molécula ativa em relação aos extratos é de aproximadamente 1 para 10.000.”

 

Ao todo, a concessão da licença da Extracta passou por uma avaliação que duraram dois anos e um mês. Como qualquer atividade de bioprospecção era ilegal, a empresa viveu só de seu capital. “Não tínhamos clientes, não tínhamos financiamento público, quem segurou a empresa foram os investidores”, lembra o diretor-geral. Em 2000, a Extracta se transformou em uma sociedade anônima, para começar a receber investimentos de outras empresas. Ainda hoje, a principal delas é a AVFS Participações e Consultoria Ltda., que reúne investidores de risco como o próprio Antônio Paes de Carvalho. A AVFS detém atualmente 38% do capital da empresa. Outros 34% estão com a Solis Biotec Participações Ltda., uma pequena empresa de investimentos em biotecnologia do banco Pactual. Em uma operação ousada, a Oxiteno, empresa química do Grupo Ultra, investiu R$ 1,5 milhão na Extracta em 2003. Com isso, passou a ter 19% da companhia. “Foi claramente um investimento de risco. Eu posso imaginar que, se o negócio der muito certo e a Extracta começar a gerar produtos na área de novos materiais, eles venham a se interessar enquanto empresa química”, avalia Carvalho. Por fim, recebeu crédito da fundação Biominas que, de acordo com Carvalho, administrava o programa de investimentos tecnológicos do Banco Interamericano de Desenvolvimento e simplesmente “não tinha onde investir e, por isso, foi investir na Extracta”. A Biominas detém 10% dos papéis da Extracta. De cada cinco plantas estudadas pela Extracta, quatro são originárias da Mata Atlântica. A outra é uma espécie da Amazônia. Para isso, a Extracta firmou um convênio com a Universidade Federal do Pará. Em troca de acessar a biodiversidade amazônica, a universidade ganhou um laboratório completo de 300 m² para a coleção de extratos e, durante dois anos, os funcionários do laboratório foram pagos pela Extracta. Conforme o empresário, foi injetado US$ 110 mil na UFPA.

 

Em 1999, Carvalho fechou um contrato de US$ 3,2 milhões com a GlaxoSmithKline, segunda maior empresa de medicamentos sem prescrição do mundo. Por esse acordo, a Extracta isolou e apresentou em forma esquemática dez moléculas que a Glaxo poderá eventualmente utilizar em remédios. O contrato vigorou até 2002, mas as relações entre as duas empresas permanecem até hoje, porque só com a licença a Extracta é capaz de obter maiores quantidades do material e permitir que a Glaxo realize os testes clínicos e pré-clínicos necessários antes de lançar qualquer medicamento. Segundo Carvalho, a Glaxo manifestou interesse em investir na Extracta e ficar com 20% da sociedade. A proposta foi negada pelo próprio presidente da Extracta: “Cliente não é sócio”. Outra cliente de peso é a Genzyme, terceira empresa de biotecnologia do mundo. Com mais de 400 cientistas em diversos países do mundo, a Genzyme quer ter acesso às moléculas acessadas pela Extracta e avançar na pesquisa de remédios que tratam doenças genéticas. A Genzyme tem em seu banco de dados mais de um milhão de compostos, mas tem revelado crescente interesse pela flora brasileira. A biotecnologia é um setor que envolve alto risco, em geral tem retorno incerto e necessita de investimentos de longo prazo. “Nossas primeiras moléculas são esperadas no mercado aproximadamente de 8 a 10 anos depois de 2002, quando foram identificadas pela primeira vez”, afirma Carvalho. A bioprospecção gera uma coleção de extratos vegetais. Por meio de ensaios biológicos, a empresa tenta identificar moléculas capazes de atingir determinados “alvos biológicos”, isto é, realizar certas reações de interesse das empresas de remédios, em geral grandes conglomerados multinacionais.

 

O negócio é interessante porque o retorno do desenvolvimento de uma molécula pode ser maior do que todo o investimento feito na empresa. Carvalho calcula que a indústria farmacêutica não lança nada no mercado mundial que não gere vendas líquidas de US$ 200 milhões por ano. Recebendo 3% dessa receita, a Extracta teria US$ 6 milhões por molécula. Em geral desconta-se disso apenas 2,5% (neste caso, US$ 150 mil), que vão para as populações locais donas da terra onde a Extracta realizou a coleta dos extratos vegetais. Mas o risco é alto e o negócio esconde grandes surpresas, diz Carvalho. “Das dez moléculas que isolamos para a Glaxo, apenas duas vieram de plantas que tinham atividade farmacológica conhecida na medicina tradicional. Mas mesmo essa atividade conhecida não tinha nada a ver com os alvos para os quais foram isoladas as moléculas. Eram coisas não relacionadas. Apenas a planta era conhecida.” O professor já acreditou mas não pensa mais que a indústria possa financiar a universidade para produzir conhecimento. Para ele, a principal interface entre ciência e indústria é a pequena empresa tecnológica, que deve funcionar como uma “extensão da universidade”. “A grande vantagem de ter entre a universidade e a grande indústria uma pequena empresa tecnológica é que nela pode-se fazer toda transformação do conhecimento em inovação”, afirma Carvalho.

 

 

 

Fonte:

 

http://www.universiabrasil.com.br/inove/noticia.jsp?Noticia=54

 

Acesso em outubro de 2005

 

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